Lavrador de 74 anos recupera certidão de nascimento após décadas sem documento
Homem que chegou a ser considerado morto pela Justiça agora pode acessar aposentadoria e serviços de saúde.
Antônio Pereira da Silva, de 74 anos, recebeu uma nova via de sua certidão de nascimento no dia 20 de janeiro, após décadas sem o documento. O lavrador, natural de Balsas (MA) e morador de Miracema (TO), perdeu a única via em um incêndio na década de 1980 e enfrentou uma série de obstáculos, incluindo a existência de uma certidão de óbito em seu nome.
A emissão do novo documento só foi possível após uma ação judicial movida pela Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO). A defensora pública Franciana Di Fátima Cardoso, que atuou no caso, destacou a importância do registro civil. "Estamos falando aqui do direito de existir do ponto de vista jurídico, para acesso às políticas públicas", afirmou.
Trajetória marcada por perdas e obstáculos
A história de Antônio começou em 10 de junho de 1951. Na juventude, ele deixou o Maranhão em busca de trabalho, passando por Mato Grosso, Goiás e, finalmente, Tocantins. O incêndio que consumiu seu barraco em uma fazenda no Mato Grosso levou consigo todos os seus pertences, incluindo a certidão de nascimento. "A gente conseguiu escapar, não morreu ninguém graças a Deus, mas o que tinha no barraco queimou tudo, inclusive a certidão", relembrou.
Sem documento, ele precisava registrar boletins de ocorrência (B.O.) para se locomover entre cidades em busca de trabalho. A falta de registro também impactou seu acesso à saúde. Antônio relatou que, após um acidente grave com um cavalo em 1993 e em uma cirurgia de emergência para retirada da vesícula, só conseguiu atendimento por se tratar de casos urgentes.
Busca judicial e descoberta da certidão de óbito
As tentativas de reaver o documento começaram anos atrás, quando a esposa de um antigo contratante, que era advogada, tentou obter a segunda via. A busca foi infrutífera porque o registro original não estava assentado no cartório, ou seja, não havia sido inscrito oficialmente, impedindo a emissão de uma nova via.
O caso se complicou ainda mais quando, em 2014, ao chegar ao Tocantins, Antônio descobriu que havia uma certidão de óbito em seu nome, registrada em São Paulo. A Defensoria Pública investigou e constatou que se tratava de um homônimo, com nome da mãe muito similar. "Meu sobrinho foi no Fórum... e chegou lá e estava uma certidão de óbito. Ficou difícil para mim", contou Antônio.
Direito à existência restabelecido
Com a transferência do processo para a comarca de Miracema, a defensoria ajuizou uma ação para a regularização da situação. A ação resultou no suprimento judicial de registro de nascimento, um procedimento que determina o registro tardio de uma pessoa no cartório.
Após receber a certidão, Antônio deu início aos trâmites para outros documentos, como o CPF, e planeja solicitar sua aposentadoria. Ele também pretende cuidar de um problema de visão. "Vou continuar trabalhando. Meu problema é só na visão, se voltar, eu trabalho normal", disse o lavrador.
A Defensoria Pública orienta que outras pessoas na mesma situação busquem o órgão para obter orientação jurídica e instrução para processos de registro tardio ou retificação de documentos.
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